<$BlogRSDUrl$>

Monday, May 12, 2003

Pensamento do dia:
"TRABALHAR DÁ MUITO TRABALHO"

ENTRE AS MAQUINAS DO ESCRITORIO
SINTO OLHOS ME VIGIANDO
SE ADORMEÇO OU VOU EMBORA
OS OLHOS REPROVAM
ESTAVAM ME OLHANDO
TRABALHO TEDIOSO
A ESFINGE FINGE QUE NAO SE IMPORTA
E SE VACILO NA RESPOSTA
ME DEVORA
ME MANDA EMBORA
SE FAÇO UM BOM SERVIÇO
ESSES OLHOS OBLÍQUOS SE FINGEM DE AMIGO
MAS SÃO DE VIDRO
SÃO LENTES
A MERO SERVIÇO DE OUTRAS MENTES
COMO UMA ABELHA OPERARIA
GARANTINDO A ORDEM DO SISTEMA

Sunday, May 11, 2003

Pedras na cara

O barulho dos carros que passavam ainda era menor do que o ruído que restava na minha cabeça. Os primeiros raios de sol vieram tímidos me avisar que já era hora de sair dali. Depois veio o sol por inteiro, esquentando o corpo e me doendo essa cabeça barulhenta. Abro os olhos e minha primeira visão é a garrafa de pinga da noite passada. A grama úmida já incomoda e talvez pior que isso só acordar com a ignorância total das pessoas que me viram dormindo na praça. As crianças se divertiam jogando pedras em mim e se eu não estivesse tão debilitado agora com certeza revidaria. Mas hoje estou cansado e aceito o papel da mulher adúltera. Ainda não vi esse tal de Jesus para vir aqui e reclamar o direito de jogar pedra nos outros. Atire a primeira pedra quem não tiver pecado. Atire a primeira pedra quem nunca tomou um porre, ele diria por mim. E tudo isso porque na noite passada marquei encontro contigo no bar e você não foi. Uma cerveja e você não aparece, duas, três, vinte e abraçava seus amigos perguntando por você. Na minha visão distorcida de bêbado todo vulto tinha o seu nome. Ontem todas as mulheres balançavam o cabelo como você. E mesmo assim acabei sozinho na praça. A verdade é que hoje é dia das mães e tenho medo. Não queria ficar sozinho nessas datas especiais. Bom, acho melhor levantar. Minha mãe contou que chorou na igreja com medo de não ter sido o bastante pra mim. Disse que eu sou rebelde e que se preocupa. Ainda bem que ela não me viu aqui. Preciso tomar um café e te ligar hoje à noite. Se você não me aparece te mato. Depois volto e escolho um canto melhor que esse. Dormir perto do meio fio nunca dá certo mesmo.

Friday, May 09, 2003

eu ontem tive a impressão

eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

Paulo Leminski


O mundo é do refrigerante


Todo dia antes de trabalhar Alfredo parava no bar da esquina para tomar um cerveja. Geralmente uma garrafa e as obrigações do escritório passavam a ser um episódio de alegria. Um dia chegou atrasado no bar e só tinha cinco minutos para bater o cartão. Não conseguia imaginar como seria ir trabalhar sem tomar seu revigorante diário. Não pensou duas e resolver comprar uma garrafa. Se preocupou com o atraso pois já estava pendurado no trabalho e resolveu ir tomando a cerveja. Quando entrou no escritório todo mundo olhou estranho. Até as pessoas que já haviam bebido do copo dele antes agora olhavam com recriminação para a garrafa. O chefe apareceu reclamando da atitude, do objeto, do líquido, da falta de ética. Alfredo simplesmente não entendia esse tipo de preconceito. Se recusou a jogar a garrafa fora e virou tudo até o final. O chefe, assustado chamou a segurança. Alfredo sentou na sua mesa e começou a trabalhar. Três minutos depois entraram dois capangas de dois metros levando Alfredo para o setor de recursos humanos. A secretária do chefe, com uma garrafa de coca-cola na mão balançava a cabeça reprovando o colega.
- Acho que fiz outra escolha errada na vida, Betty.

Thursday, May 08, 2003

A mulher da televisão
26.abril.2003

Depois de trancar a faculdade por razões extraordinárias, Cristiane passou a viver uma vida depreciativa, insensata e boêmia. Para pagar suas dívidas teve que vender a guitarra, o celular e a televisão. Aliás me enganei, ela não vendeu o celular. Na venda da guitarra, negócio certo. O problema veio mesmo com a televisão...

*

Após cobrar de Thaíse milhões e milhões de vezes, quase compro uma pistola de brinquedo e pulo no pescoço da mulher. Meus amigos pediam dinheiro emprestado, e eu sempre dizia: "Te empresto quando a mulher da televisão me pagar."

Já estava cansada de ouvir a mesma coisa de todo mundo: "E a mulher da tela, já te pagou?", "Você foi burra mesmo de vender uma televisão sem receber a grana na hora. Bem que eu te avisei.", "Se quiser dar um susto na da tela tô aqui pra isso."

Foi na última frase que tomei coragem para ir atrás daquela vigarista. Já tinha ido à delegacia, tinha a grana para recorrer no cartório, mas pensei em tentar pela última vez. Fabiano apareceu no seu fusquinha branco e fomos conversando até o tal do Tarumã, onde morava a sem-vergonha. Chamamos ao interfone e ninguém atendeu. Tocamos no sobrado vizinho e aparece uma mulher baixinha, com cara de mestre dos magos, para solucionar nossas questões. Fingimos ser da polícia e perguntamos o que ela sabia da gatuna. A velha respondeu que Thaíse tinha fama de ladra e que era estelionatária de carteirinha, com prisão e o caralho a quatro. Fiquei louca, o sangue subiu ao ter certeza de que realmente havia sido enganada. Logo eu, que precisava tanto daquele dinheiro. Fumamos uns cinco cigarros pensando no que fazer. Depois que um menino saiu e acidentalmente nos abriu o portão, não pensamos duas vezes: invadimos o pátio do minicondômínio de sobrados procurando o número da casa. ÓTIMO, 8. VOU INVADIR ESSE NEGÓCIO.

Não tinha força para puxar aquela janela. Fabiano resolveu pular e abriu me ajudando a percorrer os cômodos daquela luxuosa casa. Ele foi realmente muito esforçado. Depois de procurar algum dinheiro sem êxito, roubamos uma conta de telefone e a tela de 20' polegadas da mulher. A minha TV de 14' não estava mais lá.

O engraçado de tudo é imaginar ela entrando em casa e se deparando com um buraco no lugar da televisão. A mulher sabe que eu estou envolvida nessa trama. Meus pais descobriram e faltaram jurar prisão. Às vezes sinto que realmente perco a noção das coisas, mas como negar o meu senso de justiça em tudo isso? Até o Fabrício que não tinha nada a ver com isso se consternou com a minha situação...

? Vamos vender essa tela, dividir a grana e comprar tudo de maconha....

? Não, vamos trocar a TV direto por maconha.

? Sério? A gente podia...

? Não, vamos deixar na Andréa.

? Espera aí, sei onde podemos vender esse treco para não sujar o nosso lado.

? Beleza.

Vendemos a televisão por cento e cinquenta reais para um velho sisudo, dono de uma loja de eletrodomésticos. Após fumarmos na casa de Cristiane veio uma fome desesperadora que nos levou direto ao rodízio de pizza. Gastei quase tudo o que ganhei em pizza. Pra mim essa história acabou em pizza.

*

Certas ações tem significados ambíguos. Se fosse comigo faria a mesma coisa. Talvez até o caro leitor, não é? Afinal acho que mesmo sendo justiça com as próprias mãos, foi justiça.

Já para os policiais que viriam em seguida, caso a vizinha anã não fosse fofoqueira e não quisesse ferrar Thaíse vendo tudo e ficando calada, acredito que essa história não soaria tão justa assim.

Depois de roubar a tela, Cristiane nunca mais foi a mesma. A menina foi forçada por seus pais a fazer exame de drogas e logo em seguida foi internada em um hospital psiquiátrico (não, essa não é a história do filme O Bicho de Sete Cabeças). Hoje divaga sobre o episódio da televisão. Então em seus delírios insanos imagina a estelionatária fazendo juras de morte à autora do furto e sorri debilmente com a visão. Depois acorda e se xinga por ter praticado um crime. Cristiane só não entende até hoje por que foi punida se só tomou de volta o que era seu: "Olha só os políticos que tomam de todo mundo o que não é deles e não pagam nada..."

This page is powered by Blogger. Isn't yours?